4.7.08

Entrevista com Wesley Noog, o mameluco afro-brasileiro

Amigo e músico Wesley Noog.


Entrevista cedida ao site B-coot

Quais foram as principais influências musicais da sua vida? Foram muitas. Primeiro porque eu nasci em um ambiente muito religioso, onde se cantava soul e gospel. Tinham também as escolas dominicais, sempre na casa de um ou de outro, onde rolavam as rodas de samba com músicas de Clementina de Jesus e Adoniran Barbosa. E ao mesmo tempo eu curtia muito soul e funk, ouvia Aretha Franklin, The Brothers Johnson, Brass Construction, Ray Charles, enfim... Pode-se dizer que meu trabalho tem uma certa influência dessas coisas.

É claro que todo mundo passa por dificuldades no início da carreira... O que você enfrentou no começo e que agora consegue administrar melhor? Comecei minha carreira no final da era das gravadoras. Antes, eram elas que assumiam a responsabilidade de divulgação, de pôr na TV, nos jornais etc. Com esse final, nós tivemos que se organizar. Primeiro eu trabalhei com o grupo Swing Cia., com o Renato Dias, que foi um grande parceiro e agitador cultural. Começamos a criar nossos próprios meios de cativar público, convidar produtores, organizar o repertório, ensaiar a banda. A gente aprendeu a fazer tudo, o que é bom porque começamos a fundamentar a carreira com uma visão mais clara das coisas.

Qual é a sua relação com a Cooperifa [Cooperativa Cultural da Periferia]? Esse é um dos projetos mais inusitados da história recente do Brasil. Um grupo de poetas da periferia, da Zona Sul de São Paulo, encabeçados pelo Sérgio Vaz, Márcio Batista e Marco Pezão, que já escreviam poesia desde os 15, 16 anos, mas não sabiam como divulgar, passar para as pessoas. Aí eles tiveram a idéia de se juntar num lava-rápido, depois de um tempo mudaram para o bar do Zé Batidão, na Chácara Santana, onde acontece o Sarau há sete anos. Deu um resultado tão legal que já virou referência nacional, tem 50 livros independentes publicados, sem recursos do Estado nem da iniciativa privada. É um projeto da comunidade para a comunidade, que está despertando profundamente o costume da leitura, e assume essa linha de frente da transformação social a partir da palavra, compartilhando experiências com os outros.
Eu particularmente conheci a Cooperifa no começo de 2002 e fiquei encantado porque parecia um sonho que eu tinha... Percebi que era um projeto fantástico, fiz várias coisas com eles, viajei, participei de um livro de poesias, fiz alguns programas de TV, e se puder vou participar sempre.

Seu estilo musical é inspirado em referências sonoras de longa data... Ele foi mudando com o tempo? A minha essência musical foi sempre a mesma, mas com nuances diferentes. Esse disco vem mais ligado ao soul, funk e samba, uma coisa que eu queria fazer faz tempo. Durante os períodos em que eu toquei com a Swing Cia. e a Estação Funkalha, e outros músicos bem bacanas também, era um contexto de grupo. Quando você trabalha em grupo tem que ouvir muito as opiniões de cada um, e às vezes o que você sente que é legal e quem tem a ver, não serve pro grupo. Então você acaba deixando de fazer algumas coisas. Agora, com o trabalho solo, eu posso ter liberdade, retomar mais essa música ligada às minhas origens.

Como foi fazer esse disco novo, seu primeiro solo, em parceria com a produtora Muda Cultural? Disco novo é sempre uma alegria, é como a chegada de um filho. Eu tenho uma filha de 8 anos, a Luara, e acompanhei todo o processo, da gravidez ao parto. Um disco é assim, um filho, as músicas são como filhos, então é uma alegria muito grande, ainda mais que este é o meu 4º disco, mas o primeiro solo. Em relação a Muda Cultural, a satisfação é grande também. É uma alegria poder contar com parceiros que entendem o que você pensa, ou pelo menos olham pelo mesmo prisma. Eles entenderam a proposta, me convidaram para fazer parte dessa história e a gente se entendeu bem pra caramba, em relação a visão musical e o que significa o entretenimento num contexto como esse de São Paulo e do Brasil, um tanto carente de informação e cultura porque os programas estão ligados só ao entretenimento. Então essa coisa de você juntar entretenimento e informação é muito legal. Você pode fazer o corpo balançar e ao mesmo tempo fazer a cabeça pensar. Toda essa rapaziada da Muda tem uma visão legal das coisas, e a gente conseguiu juntar as forças e certamente vai trilhar por um tempo esse mesmo caminho.

mais sobre ele: www.myspace.com/wesleynoog

2 comentários:

Nóog disse...

Valeu meu irmão Renato Vital...!!!

Estamos juntos nesta caminhada...

Um forte abraço!!!!

Wesley Nóog

Fefa disse...

"Fazer o corpo balançar e a cabeça pensar" - muito bom, Wesley. Sempre que penso em São Paulo lembro de você, que ajudou muito a essa capixaba se sentir em casa na terra da garoa. Feliz pelo teu trabalho, qualquer dia vou te assistir.
Beijo no teu coração, felicidades!!
Fernanda (amiga do Gil e da Cíntia)