11.4.10

Space Night Club, minha casa ou minhas primas.

- E ai o que acha da minha oferta, vai ter todo esse corpinho, todos os anos de sua vida, eu sou novinha ainda, tenho apenas 21 aninhos, vai poder me desfrutar por muitos anos Osvaldo.
- É, minha mulher, minha mulher não é mais a mesma, mas ainda funciona né.
- Sim Osvaldo, e agora que ganhou na loteria, não tem por quê ficar com ela, me leva contigo pra Búzios, ou sei lá, que lugar a gente vai?
- Não sei, to em dúvida, e minha família?
- Ah, você manda dinheiro pra eles, você tem de sobra agora que é rico.
- Fala baixo, quer que todo mundo saiba, e me mate pra eu não desfrutar da grana.
- Desculpe Osvaldinho. Osvaldinho me leva contigo!
- Tenho que pensar minha flor.
- Vou te mostrar um negócio, vem cá no cantinho do bar...
- To indo...
- Gostou, comprei hoje, só pra você.
- Nossa que lingerie deliciosa, adoro fio dental.

Osvaldo vai com a Berlinda pro quarto, acende a luz, tira a roupa. Ela também fica nua, Osvaldo cai babando em cima dela. Berlinda é maliciosa, se esquiva, chantageia, catimba, joga o verde pra colher o maduro, fica na espreita.

- Calma Osvaldinho, promete que me leva contigo, ainda hoje?
- Prometo, prometo, vamos com isso agora.
- Claro gatinho.

O quarto começa a pegar fogo, Osvaldo apesar da idade, ainda aguenta o tranco. Osvaldo se lambuza com a melhor prostituta do cabaré, Osvaldo está feliz.


- Seu pai está demorando né?
- Sim mãe já já ele chega.
- Não vejo a hora de me mandar dessa favela, detesto esse lugar, só vou sentir saudades da igreja que eu sempre frequentei.
- Eu daqui, não vou sentir saudades de nada, não vejo a hora de partir.
- Pois é, será que eu devo ligar pro seu pai, ele tá demorando.
- Iii mãe, agora que o papai tá rico, tá toda protetora né.
- Não menino, eu to preocupada é com ele mesmo, como sempre estive.
- Calma cocada, to brincando só, mas eai, e os nossos móveis?
- Acorda menino, isso tudo vou deixar pra minha mãe vir pegar, só quero coisa nova.
- Vai com calma mamãe.


Quarto do Space Night Club...

- Eai Osvaldo, quando se passa pra me pegar.
- Vou em casa, pegar tudo o que conseguir, minhas roupas, algumas só, ai passo pra te pegar.
- È mas, coitada da sua esposa, manda pelo menos a pensão pra ela, se não a coitada pode morrer de desgosto.
- Sim claro, já pensei nisso tudo, minha flor.
- E então vamos morar aonde Osvaldo, quero tudo do mais lindo, do mais refinado, do mais luxuoso, do mais...
- Do mais caro né.
- Sim meu amor, quero tudo o que nunca tive.
- Sim, mas e meu ciúmes como é que fica, ontem mesmo você levou outro pra cama, bem na minha frente.
- Osvaldinho, isso são águas passadas, e outra, é minha profissão, álias, era.
- Sim, me espera as três da madrugada, aqui em frente mesmo, eu passo pra te pegar.
- Só tenho uma dúvida.
- Qual?
- E seu namorado?
- Qual? Aquele bastardo? Já terminei com ele ontem, ficou lá choramingando, me cobrando favores, que ele me ajudou quando cheguei em São Paulo, que me deu abrigo, que me arrumou emprego, apesar de eu não ter ficado nele. Enfim ficou chorando aos meus pés, mas sabe como é né, ele não tem mais nada pra me oferecer.
- Ele tá bem, digo, está tudo bem?
- Está sim, pode deixar.
- Olha toma cuidado viu, tudo bem.
- Osvaldo, vou lá me arrumar tá, vou pedir as contas pra Margarida, e me mandar desse lugar podre.
- Olha que o Alfredo num vai gostar heim.
- Aquele verme, não devo nada pra ele, só por que é PM, fica se achando, só por que anda armado acha que é o tal.
- Certo vou indo então, minha flor.
- Tudo bem, até as três viu.
- Até lá.

Ditinho vem subindo a rua, e cruza com Osvaldo. Eles se cumprimentam, mas não são de se falar muito. Osvaldo chama Ditinho, tem algo a dizer pra ele.

- Fala Osvaldo, anda sumido, nunca mais foi jogar sinuca com a gente.
- Pois é meu bom, tava viciado a colar no Space, sabe como é né, minhas meninas precisa se sustentar, e eu ia lá pra dar algum pra elas.
- Sei como é, puteiro não é muito a minha cara não, mas a tentação é grande mesmo.
- Se é meu caro.
- Osvaldo.
- Fala meu caro.
- Todo mundo anda dizendo, que você enriqueceu, e que vai sumir da quebrada, é verdade?
- É nada meu amigo, to duro como sempre, durinho da silva.
- A, o zé povinho só inventa mesmo né.
- Com certeza.
- E seu primo como anda, tá melhor?
- Tá na mesma, mas tenho fé que vai melhor.
- To torcendo por isso.
- Valeu meu amigo.
- Então Ditinho vou indo nessa, até mais viu.
- Até mais Osvaldo.

Osvaldo caminha em direção de sua casa, dá graças a Deus que vai sair daquele bairro, e outra, vai ter carne nova todos os dias, a sua disposição. A Flor era uma mulher surpreendente, gostava de levar os homens ao delírio. Vai lhe dar tudo do bom e do melhor. Quem sabe um Apê de frente pro mar, seria uma boa pedida.

- E Osvaldo demorou, e então vamos?
- È pai, vamos embora, tem dois dias que você ganhou na loteria, a gente tá dando sopa aqui, vamos embora, rápido.

Osvaldo sente um frio na espinha, algo estranho a invadir sua consciência, aquele famoso peso na consciência. Osvaldo se lembra de quando se casou, sua mulher era virgem, se entregou pra ele, apenas depois do casamento. Ele se lembra que era mulherengo, mas mesmo assim ela gostava dele, o aceitava do jeito que era. Mesmo depois que nasceu seu primeiro filho, mesmo depois que a situação estava caótica em casa, mesmo assim, ela nunca o abandonou. Aquela mulher de saia vermelha, sorriso humilde, e semblante de sofrimento, sempre o apoiava, mesmo quando estava com raiva dele. Osvaldo se lembra de sua filha, que estava na casa de alguma amiga, esperando o papai, passar pra pegar ela, pra ela virar uma princesa, em algum castelo por ai.
Osvaldo se encaminha pra porta, está com uma mochila nas costas, vai abandonar a família. Osvaldo observa sua esposa, lavando sua última louça, seu filho arrumando sua última mala. Ele dá mais um passo, em direção a porta, e quando abre ela, sua filha chega correndo.

- Vamos papai, demorou, vamos embora logo. Não vejo a hora de chegar na nossa nova casa. Que alegria, que emoção, vou ter um quarto só pra mim.
- Tudo bem então, vamos, podem ir entrando no carro.

Osvaldo abre sua carteira, tira uma pequena foto, de uma mulher seminua. Osvaldo rasga a foto, e arremessa no lixo. Uma porta se fecha atrás de Osvaldo, seus filhos o esperam dentro do carro, sua esposa também. Ah, aquele velho Passat, quantas idas a represa com sua família. Legal foi quando desceram pra Praia Grande, se não fosse o guarda-vidas, Osvaldo teria batido as botas, bebeu tanto, que se esqueceu que não é peixe. Osvaldo liga o carro e parte, parte pra outro lugar, pra outro bairro, pra outra realidade, afinal, aquela comunidade pra ele, não tinha jeito. Osvaldo diz consigo mesmo:

- Adeus Vila Gumercinda, até outro dia.

Frente do Space Night Club, três horas da manhã:

- È hoje que eu tiro o pé da lama, aquele pança de chopp vai me levar pra ser rainha. Bem que eu sabia, uma hora meu dia ia chegar. A Flor vai virar um Jardim agora, vou ser bem recebida nos melhores hotéis, e motéis, enfim, em qualquer lugar que for. Será que vou pro Resort que fica em Búzios primeiro, ou é melhor ficar em Foz do iguaçu por alguns dias. Não sei, só sei que na primeira oportunidade, acabo com a raça daquele infeliz do Osvaldo, e me mando com a grana pra bem longe.

Flor era uma prostituta simples, com o corpo bonito, o rosto esbelto, e muitos sonhos na cabeça. Veio pra São Paulo aos 16 anos, pra morar junto com um tio, irmão de sua mãe. Deixou Pernambuco, pra viver um sonho na cidade grande, ser modelo, ou então trabalhar numa grande empresa. A casa de seu tio não era muito grande, mas ela podia dormir na sala, enquando a esposa de seu tio, ele, e seus dois filhos dormiam no quarto. Certo dia, notou um olhar estranho em seu tio, ele observava as pernas dela. Com o tempo começou a encoxar ela na pia da cozinha, jogar indiretas, procurar ficar sozinho com ela em casa. Até que um dia, aproveitando o sono de sua esposa, agarrou ela na sala, rasgou sua blusa, e tentou chupar seus seios, ela se esquivou e saiu correndo, se trancou no banheiro e ficou chorando por horas. Depois que seu tio tentou estrupa-lá, ficou com medo, mas não tinha pra onde ir. Certo dia ele chegou bêbado em casa, pegou uma faca e tentou intimidar ela, pra que tirasse a roupa. Ela se esquivou, e na hora chegou a esposa dele. Ele mentiu e disse que ela estava o seduzindo, ela foi expulsa de casa, e começou a perambular pelo centro de São Paulo. Com o tempo arrumou emprego num restaurante japonês, e vendo que estava sendo escravizada, num belo dia, roubou tudo o que pode, e sumiu no mundo de novo. Até que conheceu Margarida num forró risca faca, que a levou pra trabalhar de garçonete em sua casa noturna. Com o tempo, ela viu como única opção pra ter algo melhor, a prostituição, e como vivia sendo cantada, vendeu sua virgindade pra um empresário, que pagou bem menos que o combinado. Dali pra frente sua vida, era só a prostituição de noite, e de dia vagar por ai. Ela gostava de ir pra pracinha, ficar olhando seu sonho passar por ela, seu sonho se chamava casamento e um amor, um amor pra curar suas dores mais profundas. Arrumou um namorado, que a ajudou no começo, prometeu lhe dar uma casa bonita, uma família, uma vida, mas era só mais um bêbado vagabundo, que batia na mulher quando chegava em casa. Um futuro incerto com certeza. Até que um dia conheceu Osvaldo, que virou seu cliente de carteirinha, e sempre prometia pra ela mundos e fundos se um dia ficasse rico. Flor está parada na esquina, aonde fica o Space Night Club, vê um homem bêbado se aproximar dela, e quando ele chega mais perto, ela o reconhece:

- O que você quer, já não disse que acabou?
- Vim te buscar, vamos pra casa.
- Não, estou esperando Osvaldo, vai me levar pra ser uma rainha como sempre quiz.
- A então você quer ser uma rainha agora?
- Sim.
- Você me feriu Florzinha, volta pra mim, eu juro que nunca mais bebo, nunca mais te agrido, nunca mais.
- Não, nunca mais quero te ver, some daqui.
- Sua vaca maldita, ou você volta comigo, ou vai se arrepender.
- Por quê, você é um merda não é de nada.
- Maldita vagabunda, vai pagar!!!

Flor recebe uma pancada na cabeça, são 03:10 da manhã.
Flor começa a ser espancada, com o sapato de seu ex-namorado, são 03:11 da manhã.
Flor grita por socorro, ninguém a ouve, são 03:12 da manhã.
Flor tenta correr, e percebe uma lâmina invadir suas costas e seus sonhos, são 03:13 da manhã.
Flor está no colo de seu assassino, que chora desesperadamente, mas ela sangra muito, são 03:14 da manhã.
Flor vê a lua, como era bonita a lua, são 03:14 da manhã.
Flor pensa, talvez Osvaldo tenha caído no sono, não demora a chegar, são 03:15 da manhã e ela sangra muito.
Flor ouve uma sirene, que vai ficando cada vez mais alta, são 03:20 da manhã.
Flor balbucia um nome pro paramédico, Osvald,Osvaldo, Osvaldo, seu ex-namorado chora dentro da viatura policial, está algemado, são 03:22 da manhã.
Flor ouve alguém dizer: - Não tem mais jeito, ela já entrando em óbito. são 03:25.
Flor se despede do mundo com um beijo, adeus minha terra, adeus meu amor, adeus Osvaldo, flor ve o mundo do avesso são 03:29 da manhã.
Flor entra em óbito, são 03:30 da manhã.

Renato Vital é escritor.

Um comentário:

moyses cria da rua... disse...

vix cada paragrafo um supense..... sumemu ....prenda a respiração q tem mais surpresas..sumemu mano nois na sintonia monstruosa sempre....