19.2.10

Como explicar....

- Ditinho?
- Eu mesmo quem tá falando?
- Sou eu Ditinho... a Simone.
- Que! Iche deixei algum serviço pra trás ontem! Se entende né Dona Simone? Sexta-feira é correria, e também tinha uma festa pra eu ir com minha namorada e tal...
- Nada disso Benedito, ou melhor, Ditinho....
- Então, não entendo, e tá tão cedo, olha só, são só seis e meia da manhã... Não que eu esteja reclamando, é uma honra atender a senhora e...
- Calma Dito, não é nada disso.
- E então, posso ajudar a senhora no quê?

Silêncio do outro lado da linha.

- Dona Simone, alô.

Soluços e um choro agudo do outro lado da linha.

- Não deixa, desculpa por ter te incomodado tão cedo assim.

- Fala... se eu poder ajudar a senhora?

- Ditinho, para de me chamar de senhora, senhora tá no céu, não é?

- Nâo sei...

- hahahhahhaha, você é tão encantador, tão engraçado, e também é dedicado...

Ditinho acha que está pirando, aquela mulher jamais se quer lhe tinha olhado direito, e agora lhe falava mil e um elogios, na verdade, Ditinho estava meio confuso, se fosse um sonho, daqui a pouco acordaria.

- Obrigado pelos elogios senhora, mas ainda não entendi, no que posso ajudar a senhora...

- Você já está me ajudando Ditinho...

- Como assim...

- È sei que não deveria me abrir assim com você, que não é íntimo meu nem nada mais... não tenho tido ninguém pra conversar francamente assim, sabe, e você é tão humilde, e apesar do rosto meio sofrido, é tão acolhedor, tão franco sabe...

- Já que o problema é conversar, não estava com muito sono mesmo, apesar de ter passado a noite com minha namorada, acabei de levar ela em casa e...

- E ai estava bom? vocês se amaram muito?

- Que?!

- Ai desculpa, acho que é melhor eu desligar, talvez seja os comprimidos que eu estou tomando pra dormir, que estão me deixando assim, tão franca.

- Não tudo bem, se a senhora precisar pode desabafar...

- Hoje às 16 horas na cervejaria Almeida, está bom pra você?

- Que?!

- É isso que está ouvindo, preciso desabafar, preciso te ver, te olhar nos olhos, te tocar, de alguém pra me compreender...

- Senhora é... a gente sei lá, pode conversar entende, é o que eu posso fazer pela senhora entende?

- Entendo, então está marcado?

- Sim senhora.

- Então já vou marcar um salão, pra estar bem bonita pra você, digo, pra conversar com você.

- Pra mim tudo bem, só vejo minha namorada as oito.

- Ditinho, dá pra parar de pensar nela só um instante?

- Que senhora, não entendi?

- Desculpe, tenho certeza que é o remédio, combinado então, hoje ás 16, na Cervejaria Almeida, você sabe onde é né, deixa eu desligar, que parece que o Magalhães está acordando, beijos viu até lá. TU TU TU TU TU TU.

Ditinho não entende absolutamente nada do que ouviu, e do que marcou com dona Simone, mas não era bobo nem nada, sentiu certa maldade no ar. Colocou a cabeça no travesseiro, e veio na sua memória as pernas bem torneadas de dona Simone, fechou os olhos, e mais tarde estaria na cervejaria Almeida, ainda sem saber o que se passaria.
Ditinho adormece, enquanto a favela acorda pra mais um dia de labuta.

Renato Vital é escritor.

Um comentário:

moyses cria da rua...no planeta das tretas .. disse...

da capitulo uma supresa sumemu tyu tamu acompanhado...