18.3.10

Corpo espinho

Tevez abre os olhos.
Está na Enfermaria do hospital. Não se lembra de nada, a última coisa que se lembra, é que saiu pra ir a casa de Ditinho, e viu um caminhão desgovernado vindo em sua direção. Tevez fica encabulado com a presença de uma pessoa na sala. Os demais pacientes dormem, só essa pessoa e Tevez estão acordados. Tevez pergunta:



- Doutor é você?

A pessoa se vira para ele, caminha em sua direção e senta na ponta de seu leito. A pessoa não para de observar pra ele. Tevez pergunta:



- E então doutor, o que aconteceu, como é que eu vim parar aqui, o que houve, quanto tempo faz que eu estou acordado?

- Calma Rafael, se acalma. -a pessoa responde.

- Mas como assim calma, que calma, estou aqui todo enfaixado, todo quebrado e me pede calma?



Só Então Tevez percebe que a pessoa não tem crachá nem nada, e está descalça, usa uma roupa de um pano reluzente branco e não para de sorrir para Rafael um só instante.



- Perai, você não é o doutor porra nenhuma, tá descalço e usando uma roupa esquisita, da onde é você carai?

- Rafael, tu sempre foi esse menino invocado, esse menino metido a bravo e mal, mas eu sei que é apenas uma máscara, e acho que chegou a hora de ela cair.

- Que cair o quê. Você é que tem que cair fora, se não eu grito a infermeira. Falando nisso como sabe meu nome?

- Olhe pra você mesmo Rafael, é apenas um menino, não irá chamar infermeira alguma, até mesmo por quê não pode abrir a boca.



Rafael ameaça rir, das coisas que a pessoa está falando, mas é interrompido:

- Rafael tente mover a perna por favor? - diz a pessoa misteriosa.

Rafael tenta de todas as formas mover as pernas mas não consegue, tenta gritar, mas a voz sai sem força, só ai toma um choque, ao perceber que está enxergando seu próprio corpo.


- Que porra é essa, como eu posso tá enxergando a mim mesmo , eu morri?
- Não você está em coma à três semanas, sua família já te considera praticamente morto, sua namorada está andando com outro homem, àlias ela nem acha mais que é sua namorada. Seu primo Ditinho é o único que acredita na sua sobrevivência, pra ter uma idéia, sua mãe já está juntando uns trocados pra fazer seu enterro e velório.

Tevez responde aos prantos:

- Cala a sua boca, maldita alma do inferno, você não sabe nada da minha vida, some daqui maldita, quero que vá pro inferno, isso é apenas um sonho, vou acordar e ter minha vida de novo.
- Não você não irá abrir os olhos agora, ela espera por você, mas ainda não chegou o momento.
- Ela quem, ela quem?
- Alguém te acordará com uma bíblia na mão, mas não se desesperes pra saber quem é, você já a conhece. Sua vida vai mudar, mas isso só depende de você Rafael.
- Vai o caralho, isso aqui não é novela não, eu vivo na periferia, onde o bicho pegar, quem poder mais chora menos, você não entende essas fitas, é só uma alma penada, que anda por ai atormentando os outros. Devia ter ido naquela fita, agora estaria rico, estaria cheio da grana, seria o rei na quebrada.

Uma outra pessoa, interrompe a conversa, essa pessoa está insangüentada, dois furos na altura do peito, e outro na perna, ela se aproxima da pessoa desconhecida que conversa com Tevez:

- Por favor, é por aqui o caminho da luz?
- Não, mas posso te indicar onde é. - responde a pessoa desconhecida.
- Minha mãe, como vai ficar minha mãe agora!
- Calma apenas siga o caminho da luz.

Tevez entra em choque novamente, aquele era o neguinho que tinha lhe chamado no portão no dia do assalto ao banco. A pessoa desconhecida volta pra sala:

- Ele era bondoso com sua família, na certa terá um bom lugar na luz.
- Eu conheço esse rapaz, não é possível, ele é meu truta, ele morreu, não pode ser. - diz Tevez.

Tevez chora novamente.

- Calma Rafael, era a hora dele, a sua ainda não chegou, e pode até uma avalanche cair sobre a sua cabeça, que tu não irá embora ainda, tens uma missão na terra.
- Mentira, eu estou morto também, se eu sobesse teria me arriscado no assalto.
- Eu te livrei do assalto, se não agora estaria morto, ou na cadeia junto dos seus parceiros do crime.
- Então você era aquela voz, aquela voz me chamando dentro de mim?
- Sim Rafael, agora deixa eu voltar pra minha morada.
- Mas onde, onde tu moras?
- Rafael, eu gosto de ir em muitos lugares onde haja paz, mas minha morada é o seu coração, por isso te conheço, te conheço mais que você mesmo. Feche os olhos querido Rafael, você viverá!

Rafael fecha lentamente os olhos de sua alma, e volta a dormir, no estado de coma.
A pessoa desconhecida, o observa ainda mais um tempo.

Na manhã seguinte:

Ditinho entra na sala onde Tevez está internado. Deixa uma flor ao lado de Tevez, e diz baixinho no ouvido dele:

- Força parceiro, irá sobreviver, tenho fé em Deus.
A mão de Tevez aperta lentamente as mãos de Ditinho, nisso ele corre chamar o médico.

- È sério doutor, ele tocou minha mão, ele tocou e a apertou.
- Acho que o senhor teve apenas uma impressão, olha como ele dorme profundamente, deixa eu examinar ele.... é realmente ele ainda dorme, foi apenas uma impressão do senhor.

O médico se retira da sala, e Ditinho observa Tevez. Uma lágrima escorre de seus olhos. Ditinho vai até o ouvido de Tevez e diz:

- Eu sabia amigo, eu sabia que não me abandonaria agora, até logo amigo!

Ditinho deixa uma rosa, ao lado do corpo de Tevez, e se retira da sala.

Renato Vital é escritor



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3 comentários:

moyses cria da rua... disse...

loko tyu chega arrepia quem ta lendo sumemu.....

Jéssica Balbino disse...

arrepiante mesmo !

DANILO. disse...

Impressionante mesmo em tio. parabens irmao.